Sunday, May 26, 2002

Sao 3 da manha... hoje ao passar a ponte no sentido Sul-Norte (ao ir para Lisboa) apanhei trânsito, e não foi por causa das obras no tabuleiro da ponte, nem havia um acidente no nosso sentido, o problema era no sentido inverso (e como sempre a nossa curiosidade, faz abrandar o trânsito, mas isso fica para outro dia).
Um suicidio
Alguém dispos-se a acabar com a sua vida... atirou-se da ponte... conduziu o seu carro (pequeno desportivo, o que sugere alguem novo), desde sua casa (no lado de Lisboa?) a pensar no que ia fazer, parou no meio da ponte, saiu, pintou o carro com estas letras "AMO-TE MARISA" e outras mais que não consegui ver porque estava o tabuleiro cheio de ambulâncias e polícias a olhar para o tejo...
Não pude deixar de pensar naquilo tudo... o suicidio é uma coisa que mexe muito comigo... talvez porque por mais de uma vez pensei seriamente nisso, não é a morte em si, é o chamar de atenção... o acto, a mensagem que se quer transmitir mas que ninguem quis ouvir, um acto de desespero talvez... nunca quis de facto morrer, apenas fazer-me ouvir (?), no fundo tive tentativas de tentativas de suicidio... mas isso todos nós temos... gostava de me tentar suicidar... uma tentativa é isso mesmo... uma tentativa, porque quando o deixa de ser passa a ser algo mais grave para o qual não há remédio, é o fim...
não sei quem era, nem que vida tinha (ou deixava de ter...), mas o pensar nos problemas dos outros sempre teve em mim um efeito de bola de neve, em que os problemas partilhados são multiplicados, por isso evito falar dos meus... fica cá dentro... como tem ficado sempre...
O pior foi ter lido "AMO-TE MARISA" foi isso que me tirou o sono... não consigo deixar de pensar no amor como uma droga... porque nos deixa alegres no principio da "viagem" mas depois a queda é tãoooooo grande... nem nos aprecebemos que estamos à beira do precipício... não digo que o amor seja viciante... para mim não o é, mas quando se ama alguém ao ponto de se morrer por esse amor... pergunto-me onde está a linha entre a razão e a loucura... o amor cega-nos... nunca me tentaria suicidar por amor... (nunca digas nunca). Há dois factores a ter em conta... a Marisa... imagino-a a receber uma chamada telefónica possivelmente para o telemóvel (que toca estridentemente de noite acordando-a) uma voz rouca de quem está ainda incrédulo a dizer-lhe que o namorado(?)/marido(?)/ex(?) se atirou da ponte 25 de Abril... qual será a reacção dela? (que parvo estou a ser, a alimentar a minha curiosidade mórbida.... não devia estar a imaginar estas coisas... mas não o consigo evitar porque sei que vou pensar nisto toda a noite...). por certo começa a chorar (era pior se o não fizesse... porque no fundo quero acreditar que havia amor... e que o seu suicidio não teve razão de ser...) desliga o telemovel, vai a casa de banho, olha-se no espelho atira qualquer coisa contra o chão violentamente e pergunta-se "PORQUÊ?!?!?!?" Depois apercebe-se que foi imprudente em ter desligado o telemovel e liga para o ultimo numero recebido, a voz masculina dá-lhe o detalhe do carro pintado... e ai o seu mundo cai... ela vê-se como o centro duma vida destruida... começa a sentir-se culpada... o sentimento de culpa é algo avassalador... começa a pensar no que ela teria feito que justificasse aquele acto... (ela sabe de certeza, eu é que não), num impulso pega em embalagens de comprimidos, mistura-os com alcool e deita-se na cama do quarto, ainda ouve o telemovel a tocar pela segunda vez, mas adormece.....
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Acorda num hospital... os médicos dizem que está tudo bem... fizeram-lhe uma lavagem ao estomago... ela esteve muito perto de morrer...
Agora está mais calma... os dias vão passar ela há-de ir ao funeral do rapaz (presumindo que foi um rapaz), se encontrarem o corpo do fundo das àguas... muita gente vai olhar para ela como se a culpa fosse dela, ela bem sabe que se sente culpada de tudo isto, e este sentimento vai atromentá-la para o resto da sua vida, ela mudou inevitávelmente a vida de alguem que lhe decidiu por um termo... e a sua vida acabou por ficar irremediavelmente alterada...
As nossas acções têm sempre um efeito e uma reacção, a vida não é uma ciência, não pudemos presumir como as pessoas vão reagir, o amor é o culminar de tudo isto, é o tubo de ensaio onde todas as reacções tendem a exarcebar os nossos sentimentos, no amor tudo é vivido a uma velocidade incrivel, ele (amor) é como uma enzima catalizadora das reacções que se dão dentro do tubo...


"A cidade está deserta, e alguém escreveu o teu nome em toda a parte, nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas. Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura, ora amarga, ora doce, para nos lembrar que o amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura.... "

E assim se perde uma vida... e ganha-se um número...